A ideia mais genial que
tivera até então. Adentrar a floresta; sozinho; de noite; sem qualquer fonte de
iluminação. Ideia excelente de qualquer ponto de vista. Afinal equipamentos de
segurança, lanternas, canivetes e bom senso são para os fracos.
Mesmo que não tivesse
bom senso, ele ainda tinha seus motivos. Era um atalho. Genial!; cortar caminho
pela floresta. Só faltava ele ir saltitando e cantando: 'Pela floresta, eu
vou bem sozinha, levar alguns doces para a vovózinha...' claro, com toda a
concordância para o gênero deste ilustre ser.
Mas vamos olhar o lado
positivo, a floresta não era tão extensa… ou assim ele pensava. Um caminho que
ele poderia fazer em vinte minutos durante o dia agora estava durando uma hora
e duraria muito mais, com exclamações do tipo: "Eu já não passei por essa
árvore, antes?" – quando se está escuro todas as árvores parecem iguais.
Nem mesmo a lua ou
estrelas poderiam ajudá-lo; o céu estava com nuvens que pressagiavam chuva e o
vento carregando o som ao longe confirmou o presságio. De repente: trovões. "Droga, preciso chegar logo, mas parece que não acaba esse corredor."
Continuava a andar, mas
estranhamente, sem se cansar. Era como se estivesse sempre com o frescor de
quando entrou por entre as árvores. Pela falta de senso comum, ou por um pouco
dele, sabia que quando parasse de andar, o cansaço nas pernas viria com tudo e
ele só iria querer saber de sua cama. Amanhã era domingo; então qual era o
problema dele acordar mais tarde pois fora passear na floresta?
Andou mais um pouco,
quando de repente os sons ao redor cessaram. Os grilos e sapos pararam com sua
cantoria. Os que faziam barulho, eram agora o vento passando por entre as
folhas das copas das árvores e os trovões incessantes ao longe… isto ele
percebera e percebera também que o local ficara mais escuro.
Olhou ao redor e
finalmente algum sentimento de autopreservação o acometeu. O coração pulou uma
batida, a respiração ofegou durante um tempo, mas apenas respirou fundo e
seguiu o mais rápido que pôde.
Se pudesse, correria;
mas como quase não conseguia enxergar e ao raciocinar que tropeçar não seria um
ponto positivo aquela noite, apenas andou o mais rápido que pôde. Foi então que
sentiu uma estranha falta de forças. De um momento para outro, todo o corpo
mudou e ele sentiu-se como se estivesse caminhando por extensas horas sem qualquer
descanso. O que era fato; nunca percebeu ou perceberia, mas tinha andado mais naquela
noite do que andaria conscientemente.
Suas pernas adquiriram
consistência gelatinosa naquele momento; perderam toda a sustentação que por
ventura tinham e ele caiu. O coração que estava calmo à oitenta agora ia para
quase duzentas batidas; a respiração passou de normal para corredor de domingo
ofegante; a adrenalina, neste caso, ajudava em nada e apenas piorava um quadro
que já não estava bom; o suor era uma mistura de algo incrivelmente quente,
quase fervendo, de exercício e frio de congelar por causa da tensão.
Com o que lhe restava
de força e com um alto grau de desespero, puxou-se com seus braços até uma
árvore e encostou-se. Olhava para um lado e para o outro. As árvores, que já
quase não enxergava, tornaram-se completamente invisíveis. Inclusive a árvore
onde estava encostado já não mais enxergava, aliás, tampouco via suas mãos que
levou quase ao olhos e que usava para tatear seu corpo na esperança de que nada
havia desaparecido.
A única coisa que veio
enxergar naquela escuridão absoluta foi um par de olhos cor laranja se
aproximando lentamente. Eles não faziam barulho, tampouco pareciam alocados a
alguma face ou mesmo a um corpo, mas eles o encaravam e dos seus próprios olhos
escorreram algo quente. “Lágrimas.” Ele pensou e… vamos deixar ele pensar que
eram de fato lágrimas.
A criatura dos olhos
laranja continuava a se aproximar. Ele não conseguia decidir se era um animal
de quatro patas ou algo pequeno que se movia em duas ou qualquer outra coisa.
Foi quando ela finalmente chegou a aproximadamente um palmo de distância de sua
face que ele sentiu um bafo frio. Percebeu tardiamente que não havia chance de
salvação e viu-se de frente com o que traria sua morte.
Não. Não viu a vida
passar diante de seus olhos, tampouco teve qualquer sentimento positivo de
arrebatamento, ou como queira chamar. A única coisa que sentiu foi impotência.
Impotência ao descobrir que existiam mais coisas entre o céu e a terra do que
sua vã filosofia e impotência ao descobrir que seria morto por uma delas.
A única coisa ouvida
foi o retornar de grilos e sapos. Nenhuma palavra. Nenhum guincho. Nem mesmo um
gemido de sua parte. Também nada por parte da criatura de olhos laranja. Ela
simplesmente fez o que queria e tinha de ser feito. No dia seguinte, algo saiu
da floresta. Este algo tinha corpo de homem. Um homem que fora incauto. Nunca
mais cometeria este erro novamente, pois o que fora incauto jamais teve uma
segunda chance…
Danilo Marfin Pedrini
5836077 - Jornalismo - 201B