Eu ainda era criança
quando vivia com um pequeno mistério (desses que só vivemos quando somos
crianças): quase todos os dias, entre um programa e outro, a televisão mostrava
comerciais de filmes, alguns porque iam passar mais tarde naquele mesmo canal.
Outros terminavam apenas com a mensagem “sexta-feira nos cinemas”. Os
“cinemas”... Como deve ser esse lugar onde são exibidos os filmes que não
passam na televisão?
Seja por coincidência
ou pura obra do destino, no ano que entrei para a escola, ela deu como dica de
passeio para as férias, uma ida ao cinema. E meus pais, que ainda estavam
maravilhados de ter o primeiro filho na escola, seguiram cada uma das sugestões
como uma verdadeira lei. Passeios para o zoológico, planetário, parques, tudo
foi muito bom e divertido, mas a única coisa que eu queria, a única que
realmente me interessava... Era o cinema.
Por fim, chegou o
grande dia. O filme escolhido foi a animação da Disney sendo exibida nos
cinemas naquela época, “Mulan”. Hora de descobrir o que eram “os cinemas”. No
shopping, em meio a correria para chegar ao local – porque aconteceu algo que
se tornaria um hábito nos anos seguintes: chegamos atrasados na sessão – eu não
consegui deixar de notar que estava entrando naquele espaço do shopping que
nunca fui, mesmo parecendo tão convidativo.
Ingressos comprados,
minha mãe foi me puxando para dentro da sala de cinema. Um lugar escuro, um som
alto e então... a tela grande. Ali, onde de repente a ficção parecia mais
próxima de mim, onde tudo era possível. Não tinha como olhar para outro lugar,
aquelas imagens enormes se movendo na tela, aquela história sendo contada de
forma única. Não era para pausar, “rebobinar” ou parar pra comer ou beber. Tudo
o que havia ali era aquela tela enorme com uma história sendo contada naquele
momento especial e mais nenhuma distração.
O melhor de tudo isso é
que a única razão para eu lembrar exatamente o que senti na primeira vez em que
entrei no cinema... é que essa emoção de ver uma história sendo contada naquela
tela enorme, sem mais nada para distrair ou atrapalhar, como um momento único,
nunca deixou de existir. Seja com “Mulan” naquele ano ou com “Árvore da Vida”,
no ano passado, a tela grande ainda impressiona, ainda encanta e hipnotiza.
Claro que hoje talvez
isso se deva pelo fato de eu tratar o cinema não só como algo divertido, mas
como uma arte, uma forma de expressão, uma maneira de se refugiar de um mundo
que muitas vezes pode nos sufocar. Tensão, choro, gargalhadas, raiva, pena, felicidade...
Emoções de uma vida, que podem acontecer todas num período de duas ou três
horas. É só apagar as luzes, acender a tela e estar pronto para entrar em mais
uma história, em mais um dos tantos mundos fantásticos que o Cinema (assim, com
letra maiúscula mesmo) tem para oferecer...
Marcelo Gomes Silva
Sala 201B
Jornalismo - Noturno
RA: 5561811